sábado, 5 de novembro de 2016

Gatos...

Minha inspiração de hoje é o gato da poesia de T. S. Eliot, The Run Tum Tugger, no seu Old Possum’s Books of Pratical Cats:
The Rum Tum Tugger is a terrible bore:
When you let him in, then he wants to be out;
He's always on the wrong side of every door,
And as soon as he's at home, he'd like to get about.

Em tradução livre:
Rum Tum Tugger é um aborrecimento terrível:
Quando você o deixa entrar, ele quer sair;
Ele está sempre do lado errado de cada porta,
E tão logo chega em casa, já quer sair para passear.


 



Essa sensação de inadaptação, de estar sempre do lado errado de cada porta, tem me acompanhado desde que tenho sentido com mais força os sintomas da EM. A fadiga, as dificuldades cognitivas como problemas de memória e falta de atenção, a própria dificuldade para caminhar ou permanecer em pé me fazem uma pessoa mais arredia. Eu, que sou naturalmente tímida, tenho ficado muito sozinha. Tenho vontade de sair, mas me sinto mal. É como se eu necessitasse de períodos de descanso também durante as conversas e as situações sociais. Talvez eu precise contar mais como me sinto para que os amigos saibam porque pareço tão arisca, mas se me oferecem um café com um pouco de paciência, verão que sou bem sociável.

Um pouco mais da ambiguidade felina nesse poema-comédia que traduzi livremente em 97, em homenagem à gata Nina.



Solilóquio do gato de Hamlet
 escrito pelo gato de Shakespeare

Ir para fora, e talvez ficar lá
ou permanecer aqui dentro, eis a questão:
se é melhor para um gato agüentar
os tapas e golpes do tempo inclemente
que a natureza chove sobre aqueles que perambulam fora de casa,
ou tirar um cochilo num cantinho do tapete
e, ressonando, fundir as horas sólidas
que entopem com tempo sombrio as brilhantes engrenagens do relógio,
e ficar esperando o sino do jantar. Sentar; contemplar
o lado de  fora;  em um olhar exprimir
um desejo de se aventurar sem demora,
e então, quando a porta se abrir, ficar parado
como que transfixado pela dúvida. Espreitar; dormir;
sair sem saber quando poderemos outra vez
retornar; e há a bola de lã...;
pois se as patas fossem feitas para desmanchar um nó
ou abrir uma fechadura ou deslizar a trava de uma janela,
e sair e voltar fosse tão simples
como quebrar uma tigela,
que gato iria tolerar os mesquinhos aborrecimentos domésticos,
os pontapés certeiros da cozinheira, a vassoura do mordomo,
os cutucões descuidados das crianças, as carícias nas orelhas,
os pisões no rabo e todos os distúrbios diários
dos quais os pelos são legatários? Se, por sua própria conta,
ele pudesse realizar seu êxodo e regresso,
que gato temeria os cães de raça,
ou tomaria cuidado ao atravessar o jardim do vizinho?
Se não fosse o medo de nossos gritos despercebidos
e dos arranhões em uma porta trancada
que nenhuma garra pode abrir,
quem iria preferir suportar nossas faltas humanas
em vez de fugir para misérias inimaginadas?
Assim, a precaução faz de todos nós gatos domésticos;
e os pelos eriçados da resolução
são amaciados pela pálida escova do pensamento,
e quando nossas escolhas trazem cargas tão penosas,
hesitamos no limiar da decisão.

Henry Beard
Hamlet’s Cat’s Soliloquy, from Hamlet’s Cat
Poetry for Cats
Tradução livre -  Eliane C. Souza
14.11.97












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